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QUERIDO HUMANO…

11/06/2009

PortoQueridohumano

“Não podemos mudar aquilo que não reconhecemos.” – Dr. Phil McGraw

Hoje viste-me, em muitos lugares e com muitas aparências diferentes.

Viste-me pequenito e solitário, olhando-te através do vidro da montra de uma loja de animais, onde te disseram que eu sou de raça pura e te mostraram o meu certificado de origem. Viste-me também pequenito, mas na companhia dos meus irmãos de ninhada, na casa de um criador certificado da nossa raça, que te mostrou os nossos pais, para que visses qual será o nosso aspecto quando crescermos, e te falou sobre as nossas características físicas e comportamentais. Viste-me, então, ainda pequenito, com outros companheiros pequenitos, uns peludinhos, outros nem tanto, junto à tenda de um feirante, que te disse sermos “de raça pequena”. Igualmente pequenito, mas sujinho e com ar de fome, viste-me, encolhido de medo e de frio, junto de outros companheiros pequenitos, na berma daquela estrada pouco frequentada, por onde os carros passam sem parar, a caminho de outros lugares menos isolados, e onde se sabe que abandonam muitos “rafeiros” como eu. E, ainda pequenito, viste-me, junto de outros companheiros também pequenitos, fazendo tudo para chamar a tua atenção, e como que desafiando-te a gostares de mim, naquele local onde recolhem ou para onde trazem, quase todos os dias, outros pequenitos ou nem tanto, rafeiros, cruzados, ou de raça pura, como eu.

Também me viste, já crescido, olhando-te pelas grades da varanda acanhada de um apartamento, no alto de um prédio; dava para notar que as persianas, nas janelas-portas por trás de mim, estavam fechadas; viste que sou de raça pura e de porte grande, e creio que percebeste, pela forma como eu latia e, por vezes, uivava, que passo muitas horas ali, naquele espaço pequeno, onde mal tenho como abrigar-me do sol ou da chuva, do frio ou do calor, e que me sinto muito só.

Já crescido, também, viste-me dentro de uma jaula, num quintal; sou de raça pura, sabes, de uma dessas raças que definem como perigosas, e, como não sabem como lidar comigo, mantêm-me aqui, dia e noite, dia após dia, semana após semana, mês após mês… só se aproximando de mim, como que a medo, ou então com berros e gestos ameaçadores, para me darem comida e água; e assim, a cada ano que passa, vou-me tornando menos sociável, mais desconfiado, mais agressivo.

Crescido, também, viste-me ao fundo de outro quintal, mas desta vez preso, por uma corrente demasiado curta, a uma casota demasiado pequena para mim, que não sou propriamente “de raça”, mas afinal sou maior do que parecia que ia ser; como tenho pouco espaço para me movimentar, o chão em torno de mim já só tem, em vez de erva, pó, quando o tempo está seco, e lama, quando chove; é também nesse espaço reduzido que estão a bacia velha onde me deitam alguns restos de comida sobre outros restos de comida já ressequidos ou podres, e uma lata onde, de vez em quando, deitam alguma água sobre outra água muito suja, mas que, a maior parte do tempo, está vazia; e é também nesse espaço que tento apanhar um pouco de sol, para me secar da chuva que apanho na casota onde mal caibo, e onde faço as minhas necessidades, porque a corrente não me permite ir fazê-las mais longe; porque estou deprimido, neurótico, e só, tenho medo de tudo e de todos, e em tudo e em todos vejo uma ameaça; por isso, já mais de uma vez tenho mordido quem se aproxima de mim, embora não seja de uma raça perigosa ou de nenhuma raça em especial… mas, por outro lado, já tenho levado pancada e pontapés, não só dos que vivem aqui, mas também de alguns intrusos cuja entrada não consigo impedir, porque estou preso… e de cuja presença, como agora ladro por tudo e por nada, já ninguém se apercebe.

Também me viste, crescido, junto de outros companheiros como eu, de raça pura, cruzados, e rafeiros, deambulando pelas ruas da cidade, procurando, nos sacos do lixo, algum alimento, dormindo em edifícios em obras, com os pescoços feridos por arames ou cordas e marcas de pancada pelo corpo, com enormes peladas provocadas pela sarna ou pelas pulgas ou por uma total falta de limpeza, perseguido e torturado para o divertimento de alguns perante a indiferença de outros, e fugindo de umas certas carrinhas com jaulas dentro, e de umas redes ou laços com uns certos cabos compridos.

Assim crescido, viste-me, ainda, com ar perdido, encolhido e a tremer, ou em desespero, a correr, desorientado, de um lado para o outro, na berma de uma estrada; era uma estrada com muito trânsito, onde, por pouco, não me viste ficar esmagado debaixo de um carro que me pareceu igual àquele de onde, pouco antes, eu fora atirado; mas era, também, uma estrada solitária, perto de um monte isolado, onde, em muitos dias, poucos carros passaram, para além do teu e do outro… pela porta do qual me empurraram, afastando-se, depois, enquanto eu estava ainda atordoado, a toda a velocidade.

E viste-me, crescido, com outros companheiros, como eu rafeiros, cruzados e de raça pura, saltando como um louco e ladrando a plenos pulmões, ou enrodilhado na mais profunda depressão e em total silêncio… num dos muitos corredores com jaulas de um local de onde só sairei para a casa de alguém que queira levar-me… ou para a secção de abate.

Viste-me, ainda, crescido, mas com tamanhos vários e todas as raças e raças nenhumas, noutro local, como ouço dizer que há muitos mas que, mesmo assim, são poucos… onde me recolheram e me prestam, com enorme boa vontade, mas com muito sacrifício e muito poucos recursos, os cuidados básicos que alguém não quis ou não soube assumir a responsabilidade de continuar a prestar-me; e viste como, porque já sou crescido, aqueles que aqui vêm em busca de um companheiro… rapidamente desviam a vista e a atenção para outros mais jovens e mais pequenos do que eu.

E viste-me já velhote. Viste-me doente, ou, simplesmente, já sem forças. Viste-me uma sombra do que fui, na loja de animais, na casa do criador da minha raça, na tenda do feirante, na berma daquela estrada de onde me recolheram e me alimentaram, e limparam, e trataram. Viste-me arrastando-me, a muito custo, por já mal poder andar, e viste-me estendido, alheado de tudo, ou gemendo, talvez com dores, talvez, apenas, porque já nem deitado me sinto confortável. Viste-me ser afastado com impaciência, ou até com brutalidade, ou viste-me ser ignorado, ou abandonado, ou trocado por um companheiro pequenito, ou já crescido, mas ainda jovem. Viste-me quando eu já não podia ver-te, porque os meus olhos se cansaram de vez. Viste-me… ou não, não quiseste, ou disseste que não podias ver-me, quando, finalmente, eu deixei de ser um rafeiro, ou cruzado, ou de raça pura… e passei a ser, simplesmente, mais uma vida que acabou.

Sim, hoje viste-me, em todos esses lugares, com todas essas aparências. Mas… será que me viste, realmente… ou olhaste apenas, de passagem, como quem olha para uma coisa qualquer, e depois olhaste para outra coisa, e seguiste, indiferente, o teu caminho? Será que me viste, de facto, para além da raça ou da falta dela, do porte, da procedência… será que me viste para além da idade ou do meu aspecto, será que me viste e me distinguiste como um ser de carne e osso, como tu, com sensações e necessidades físicas, como tu, e com sentimentos e emoções, como tu? Será que reconheceste, em mim, que sou de outra espécie… um ser, afinal, como tu, que és humano… porque tu e eu somos, antes de tudo, e independentemente da espécie, seres vivos?

Se realmente não me olhaste apenas de passagem e reconheceste tudo isto, hoje, quando me viste… queres ajudar outros seres humanos como tu, hoje, amanhã, e sempre… a verem-me, realmente, também – ou seja, a reconhecerem, verdadeiramente, aquilo que está errado e é preciso mudar?

Agradeço-te, querido humano. E acredita que, independentemente da minha raça ou falta dela, do meu porte, da minha origem, da minha idade ou do meu aspecto, já está nos meus genes, há muito, acompanhar-te, gostar de ti, e ser-te leal, e proteger-te… porque te vejo, essencialmente, como um amigo…

… Mesmo quando não me vês, afinal, senão como… apenas um

Cão

~

(Na foto, o PORTO, que um ser humano bom de verdade viu, deambulando na cidade com o mesmo nome, e trouxe para cá. Trazia um arame incrustado debaixo da pele do pescoço, onde tinha já uma grande infecção, e estava imundo, cheio de sarna, e faminto… mas, apesar de tudo, deixou-se tratar com a maior docilidade, e é hoje um dos nossos veteranos mais sociáveis, auxiliando-nos nas buscas de outros cães abandonados ou perdidos, e na integração de todos os recém-chegados. Vejam outra fotografia do PORTO na página “Precisam de padrinhos”)

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