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EUTANÁSIA DE ANIMAIS DE COMPANHIA – O tema em debate na página do Facebook do P.T.N. (um artigo para reflexão e informação)

08/11/2010

A palavra “Eutanásia” vem do Grego, e significa, literalmente, “boa morte”. E como o debate em curso nesta nossa página diz especifica e exclusivamente respeito ao tema da eutanásia de animais, designadamente dos ditos de companhia, diremos que eutanásia é o acto de induzir a morte, de forma indolor, rápida, e compassiva, e através de diferentes métodos, a um animal que sofra de uma doença ou de ferimentos incuráveis, ou cuja qualidade de vida, como efeito de deficiências ou limitações graves, ou degeneração ou falência de sistemas vitais decorrentes de idade avançada ou de outras origens, esteja seriamente diminuída ou mesmo comprometida. Em tais casos, a utilização da palavra “eutanásia” parece-nos claramente apropriada, pois, sendo a sua aplicação destinada a proporcionar a um animal em grande e irreversível sofrimento um fim sereno, rápido, indolor, e digno, ela significa, efectivamente, que lhe está a ser facultada uma “boa morte”.

No entanto, por outro lado, a palavra “eutanásia” é incorrectamente aplicada – não passando, na verdade, de um eufemismo – para designar a prática de ABATES, designadamente para o controlo da sobrepopulação de animais errantes ou da sobrelotação de canis e gatis municipais (actualmente designados por “centros oficiais de recolha de animais” em Portugal), ou no controlo de zoonoses, ou ainda em casos de agressão grave ou desvios comportamentais considerados irreversíveis – uma vez que, nestes casos, não se trata propriamente de um acto compassivo, ou com fins misericordiosos, embora, por vezes, os métodos utilizados possam ser os mesmos.

Contudo, quer a eutanásia propriamente dita – acto misericordioso – quer o abate – acto considerado necessário, erradamente ou não – suscitam, muitas vezes, dúvidas, e se nem sempre a primeira é encarada automaticamente como algo de positivo, nem sempre o segundo é tão obviamente negativo como possa parecer, no sentido em que nem sempre pode ou deve ser evitado.

E comecemos por este, ou seja, pelo ABATE – que, pelas razões acima explicadas, fazemos questão de distinguir da eutanásia:

Quando se trata do controlo de zoonoses que, comprovadamente, constituam um risco grave para a saúde pública, e que não possam ser prevenidas através da vacinação (como foi, em tempos, por exemplo, o caso da raiva, hoje erradicada em Portugal, mas ainda existente em outros países) ou tratadas através de outros meios terapêuticos, o abate dos animais infectados pode tornar-se inevitável;

Já relativamente ao controlo da sobrepopulação de animais errantes, que, em Portugal, acaba por estar directamente relacionado com a acção dos canis e gatis municipais, o abate não é, nem pouco mais ou menos, a única solução, referindo-se aqui, pelo menos, a principal – a esterilização/castração – havendo, no entanto, outras, que abordaremos ou no desenvolvimento deste debate, ou em outros a promover futuramente;

No que se refere ao caso mais sensível, que é, como já terão adivinhado, o dos abates praticados para controlo da sobrelotação dos já referidos canis e gatis municipais, há algumas realidades que, por muito que nos custe, não podemos nem devemos, sob pena de nos tornarmos irresponsáveis, deixar de ponderar:

– Infelizmente, não só os canis e gatis municipais (de abate, na sua maioria, no nosso país) como as associações de protecção animal, como a maioria dos centro de recolha de animais não oficiais, estão, de facto, desesperadamente sobrelotados, uma vez que o número de animais que dão entrada nestes locais – por diversos motivos, entre os quais o abandono e a entrega voluntária por parte dos próprios “donos” predominam – é muitíssimo superior ao do número de pessoas individuais ou famílias disponíveis para os acolherem;

– Também infelizmente, como o espaço, as instalações, e os meios humanos disponíveis são, em regra geral, insuficientes e inadequados, e os recursos financeiros escassos ou mal geridos nesses locais, os animais ali recolhidos (muitos deles ainda jovens, ou mesmo bebés, e, pelo menos quando lá dão entrada, saudáveis) permanecem em condições absolutamente inaceitáveis e degradantes, amontoados em jaulas ou boxes, ou acorrentados em espaços mínimos, sem quaisquer cuidados de higiene (a não ser a eventual mangueirada de água fria, dirigida ao pseudo-alojamento, mas que também atinge o animal que lá se encontra) ou de outro tipo, mal alimentados, deprimidos, aterrorizados, envolvendo-se, muitas vezes, em lutas, ou procriando acidentalmente, e ainda sujeitos a todo o tipo de doenças e ferimentos;

Ora, por muito que o abate, muitas vezes indiscriminado, destes animais nos horrorize, e o rejeitemos liminarmente como “solução”, a verdade é que… não podemos deixar de considerar que viver em tais condições NÃO é viver, mas sim sofrer de forma insuportável. E aqueles que, como nós, condenam e combatem a negligência e os maus tratos praticados contra os animais, talvez não possam, se reflectirem um pouco, deixar de considerar que este sofrimento a que estão sujeitos seres vivos e sencientes, não é, afinal, senão um CRIME!

Porém, se não se aceita que este crime seja resolvido com o abate – que muitos de nós consideram, nestes casos, outro crime – é urgente desenvolver as soluções alternativas, que também as há, felizmente, e têm sido implementadas com sucesso em muitos outros países. Mas este é mais um tema que merece bem ser expandido num ou mais debates específicos, que gostaríamos também de promover num futuro breve, bem como em outros artigos.

Resta-nos referir, muito brevemente também, e ainda na área dos abates, aos praticados em casos de agressões graves, ou quando se verificam desvios comportamentais considerados irreversíveis. Claro que nos vem à mente, quase de imediato, o controverso caso das raças consideradas e classificadas como perigosas – mais outro tema para um futuro debate – mas, nem as agressões graves são, nem pouco mais ou menos, exclusivo dos animais dessas raças ou, aliás, de raça alguma, nem os desvios comportamentais (às vezes na base das anteriores) são atributo de qualquer raça específica, até porque, com frequência, são adquiridos, ou têm fundamento em patologias não relacionadas com factores genéticos. Acrescentaremos, apenas, e para concluir, que uma avaliação séria e verdadeiramente criteriosa, de preferência caso a caso, por parte das autoridades a quem compete determinar o abate nestas situações (que nem sequer são tão frequentes assim a ponto de justificarem decisões e acções apressadas e indiscriminadas), não só deveria ser imperativa, como iria, certamente, evitar muitos abates perfeitamente desnecessários.

E passamos, finalmente, à EUTANÁSIA – mais uma vez, como conceito definindo um acto misericordioso e compassivo, destinado a proporcionar a animais com doenças terminais, ou, por outros motivos, em sofrimento – ou deterioração da respectiva qualidade de vida – irreversível, uma “boa morte”:

E não podemos deixar de começar por dizer que não só a decisão de eutanasiar um animal de companhia (sobretudo quando esta designação é sinónimo, efectivamente, de companheiro constante, e amigo dedicado e estimado, por vezes de muitos anos) é talvez a mais difícil que a maioria dos seus cuidadores humanos terão que tomar – como, por outro lado, a determinação da existência ou não de alternativas, ou, uma vez definida a ausência destas, a determinação do momento certo para a aplicação da eutanásia, podem suscitar enormes dúvidas, e, mesmo, verdadeira angústia aos mesmos cuidadores, dúvidas e angústia essas que, aliás, muitas vezes, mesmo depois da decisão tomada de forma criteriosa e reflectida, subsistem por muito tempo. Sim, é difícil, para não dizer inevitável, pensarmos, mesmo quando temos, no fundo, a certeza de ter tomado a decisão certa: “Fiz, relamente, tudo o que era possível… ou poderia ter feito mais?”

A assessoria e o acompanhamento de um veterinário – que é, aliás, a quem compete proceder à eutanásia, quer esta tenha lugar na clínica ou hospital veterinário, nas instalações do centro de acolhimento onde o animal se encontre, ou no domicílio que este partilha com o seu cuidador – são, por conseguinte, absolutamente essenciais. E não só deve tal assistência abranger o mais óbvio – ou seja, a prestação dos cuidados e terapias adequados para cada caso, e o acompanhamento regular, que por vezes se justifica que seja constante (mediante internamento) da evolução do estado do animal – como deve incluir o esclarecimento de todas as dúvidas que o cuidador do animal possa ter, bem como a proposta e a apreciação, em coordenação com o mesmo cuidador, de quaisquer possíveis alternativas.

Neste processo a ser desenvolvido em conjunto, é importante que, além da preocupação com o bem-estar do animal acima de tudo, e além da essencial compaixão, subsista, também, o bom senso – para que a eutanásia não seja decidida de forma precipitada, mas também para que, por outro lado, a agonia do animal não seja desnecessariamente prolongada.

E, por fim, porque esta decisão é demasiado importante e o bem-estar do nosso companheiro animal demasiado precioso para que não estejamos devidamente esclarecidos e completamente preparados para o que vai, efectivamente, acontecer, devemos, caso o veterinário assistente não tome essa iniciativa, pedir-lhe que nos explique o procedimento em si, e o método a que pensa recorrer. Isto porque, se é um facto que a eutanásia implica, por definição, a aplicação de métodos que proporcionem, de facto, uma morte rápida, serena, e indolor – no caso dos animais de companhia, através, geralmente, da administração de uma injecção letal (uma combinação de anestésicos de elevada concentração e, por vezes, de um relaxante muscular) intravenosa (numa veia), intracardíaca (aplicada directamente no coração), ou ainda intraperitoneal (aplicada no peritoneu, que é a membrana fina e transparente que reveste todos os órgãos da cavidade abdominal), também é verdade que o respectivo efeito (paragem cardíaca e respiratória total) não é imediato, podendo levar até cerca de 30 segundos, o que, para um observador desprevenido, poderá ser chocante. Porém, mesmo que durante esses segundos – que parecem horas… – o animal já não esteja, efectivamente, em sofrimento, embora possa ter reacções físicas que nos induzem, frequentemente, a pensar que sim, é possível evitar mesmo esses momentos, mediante a administração de uma profunda sedação prévia, através, mais uma vez, de uma injecção, ou, em alguns casos, por inalação – sendo, desta forma, assegurada a tal serenidade que os nossos amiguinhos merecem e todos desejamos que seja absoluta.

Esperamos, com este artigo que procuramos compor de forma imparcial e sem diligenciar ferir susceptibilidades ou, adicionalmente, influenciar quem quer que seja neste ou naquele sentido – pois temos, obviamente, o nosso próprio ponto de vista enquanto responsáveis por um centro de acolhimento de animais em risco, e, individualmente, enquanto pessoas que amam os animais e se preocupam com o seu bem-estar acima de tudo, condenando e procurando combater tudo aquilo que o ameace ou ponha em causa, sem, contudo, nos arrogarmos detentores da verdade ou da perspectiva perfeita e indiscutível – ter contribuído para uma mais completa informação dos nossos amigos sobre este tema, e para uma reflexão mais profunda e fundamentada acerca do mesmo, e do máximo possível das suas implicações e variáveis – esperando, com isto, e também, ter contribuído para o enriquecimento deste debate, que de modo algum daremos, ainda, por encerrado, e ao qual, desde já, muito agradecemos a vossa adesão.

A Equipa do P.T.N.

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